sábado, 21 de dezembro de 2013

Esfria

Desceu os degraus apertados do ônibus como se pulasse poças de água, caiu na rua em posição de prontidão e caminhou altiva sobre o asfalto desregulado, cambaleando em seus pesados pensamentos se perdendo em suas leves desilusões. Caiu-se em si mesma, percebeu  a imensidão onde estava inserida viu que a vida era tão passagem quanto uma troca de paradas, uma troca de lugares no ônibus, um estar de pé, um sentar-se, um cair em si ou nos outros. 


É tudo tão rápido e essa rapidez dói, tanto quanto perder um amor, tão sutil quanto um tropeço distraído no fio da calçada, a vida é a mais sacana das desilusões.  Ela estava sem ritmo, mas andou, andou quilômetros catando segundos. Seus olhos doíam, mas guardou fotos mentais do que entendia por ser um momento belo. Estava perdida, mas não queria perder, queria algo para segurar, queria guardar, queria um controle absurdo de algo incontrolável. Ela foi como tudo ia, acabou como tudo acaba sem nem começar, renovou-se como tudo se renova sem ao menos nascer.

Seus olhos abriram e se encontrou olhando para janela do ônibus parado, viu-se fitando o asfalto desregulado, segurando os braços trêmulos, sentada no fundo do coletivo. A imaginação se fechou e a vontade de sair abafou-se na mesma velocidade que chegará, as questões se fizeram cinzas e o mundo era simplesmente só aquilo que se via. Um pragmatismo suportável onde nada sufocava, a verdade era somente o que estava ali. Lembrou que sua mãe dizia:

- Questionar a vida é o mesmo que sentar em um formigueiro, dói. Esquece essas bobagens, come logo que a comida está esfriando. Pelo simples fato que tudo que para esfria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário