Esfria
Desceu os
degraus apertados do ônibus como se pulasse poças de água, caiu na rua em
posição de prontidão e caminhou altiva sobre o asfalto desregulado, cambaleando
em seus pesados pensamentos se perdendo em suas leves desilusões. Caiu-se em si
mesma, percebeu a imensidão onde estava
inserida viu que a vida era tão passagem quanto uma troca de paradas, uma troca
de lugares no ônibus, um estar de pé, um sentar-se, um cair em si ou nos
outros.
É tudo tão rápido e essa rapidez dói, tanto quanto perder um amor, tão
sutil quanto um tropeço distraído no fio da calçada, a vida é a mais sacana das
desilusões. Ela estava sem ritmo, mas
andou, andou quilômetros catando segundos. Seus olhos doíam, mas guardou fotos
mentais do que entendia por ser um momento belo. Estava perdida, mas não queria
perder, queria algo para segurar, queria guardar, queria um controle absurdo de
algo incontrolável. Ela foi como tudo ia, acabou como tudo acaba sem nem
começar, renovou-se como tudo se renova sem ao menos nascer.
Seus olhos
abriram e se encontrou olhando para janela do ônibus parado, viu-se fitando o
asfalto desregulado, segurando os braços trêmulos, sentada no fundo do
coletivo. A imaginação se fechou e a vontade de sair abafou-se na mesma
velocidade que chegará, as questões se fizeram cinzas e o mundo era simplesmente
só aquilo que se via. Um pragmatismo suportável onde nada sufocava, a verdade
era somente o que estava ali. Lembrou que sua mãe dizia:
- Questionar a
vida é o mesmo que sentar em um formigueiro, dói. Esquece essas bobagens, come
logo que a comida está esfriando. Pelo simples fato que tudo que para esfria.

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