Um mundo chamado antes
Os questionamentos são os mesmos, mas achamos que mudamos com o tempo. Meus olhos vêem que eu sou diferente no espelho, mas minhas mãos tocam paisagens exatamente iguais as paisagens de dez anos atrás. Sou.
Os questionamentos são os mesmos, mas achamos que mudamos com o tempo. Meus olhos vêem que eu sou diferente no espelho, mas minhas mãos tocam paisagens exatamente iguais as paisagens de dez anos atrás. Sou.
Cada palavra que se escreve é um
segundo que se perde, cada dia é um clichê enorme que se ganha. Sorteio irônico
das horas, contagem difusa que incrivelmente é sempre a mesma. Dizem que é nossa
tarefa é inserir nos dias uma “singularidade” nada abstrata. Vivo.
Acordei com o rosto torto, como nunca antes, ou talvez como antes, só que
não dava tanta importância a esse formato ou quantas horas dormia nesse mundo
chamado antes. Mudei.
Levantei as mãos pro alto e estiquei o corpo em um só sentido e amei aquele segundo, mas ele não me deixou amá-lo, foi logo saindo, sem ao menos dar tchau. Passei junto.
Vi o sol, ele não gosta de ser
visto, ardem meus olhos quando o encaro por muito tempo, queria eu ter o poder
de fazer isso com algumas pessoas. Olhares.
Todo mundo alguma vez tentou viver
sozinho, mas desistiu depois que se sentiu completamente sem motivo, que se
sentiu com as mãos vazias de problemas e com a mente longe das buscas, das
metas. O mundo.
A minha palma estava fria quando tocou algo quente, era teu rosto, tua
barba, as pequenas fincadas que sinto na mão e no peito, sinto sem estar
sentindo agora de fato. O pior é que tu ainda tenta me explicar isso com palavras difíceis e olhar doce. Vazia.
Suei na corrida para alcançar o ônibus, dancei sozinha na sala porque
senti vontade, no meu pescoço surgiram gotinhas leves, dancei mais e elas
desceram pelo meu corpo. Calafrios.
Eu não consigo sentir nada novo, não consigo prolongar os sentimentos, só
consigo me focar na passagem, por que a vida é assim? Por que eu vivo? Por que
eu tenho que acolher essa ideia? Aceitar.
O tempo é bonito, a razão é a noite, o dia a
respiração e a gargalhada é o fim. O que não tem nada é o mundo de antes, esse
mundo que escreveste agora, esse mundo que pensará amanhã, esse mundo
imaginário, esse mundo que é teu, que arde, que cansa... Antes, sei que ele machuca, sei que ele pulsa, ele passa...Agora.
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